23.06.2010 - Até que a morte separe
No último final de semana de maio, dias 29 e 30, peregrinos de todo o Brasil saíram de suas cidades em direção a Aparecida, à casa de Nossa Senhora e Nossa Mãe. Objetivo: pedir sua intercessão pelas famílias; proclamar o grande valor da Família, diante de uma sociedade cada vez mais desnorteada pelo individualismo, solidão e sexo irresponsável; fortalecer a Pastoral Familiar e os movimentos dedicados à Família. Foi a segunda edição da Peregrinação Nacional das Famílias, que teve como tema: “Família Formadora de Valores Humanos e Cristãos”. Na Basílica Nacional, eram em torno de 170 mil os peregrinos, na missa presidida pelo Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Pedro Scherer. Mais de 400 eram provenientes da nossa Diocese, que se organizou em nove ônibus, saindo de Rio Azul, Paulo Frontin, Paula Freitas, Rebouças, Mallet, São João do Triunfo, General Carneiro e São Mateus do Sul. Um número expressivo, se levarmos em conta que a Pastoral Familiar Diocesana, começou a ser reformulada nos últimos dois anos, com nova equipe, nova coordenação, e muita vontade de alinhar-se com as propostas da CNPF, a Comissão Nacional da Pastoral Familiar.
A família é um bem para a sociedade
Quem sempre repete esse bordão é dom João Carlos Petrini, bispo auxiliar de Salvador, BA, e um dos membros da Comissão da CNBB para a Vida e a Família. Sociólogo de formação, Dom Petrini diz, com muito conhecimento, que a família é um bem precioso, não só do ponto de vista da religião, como dom de Deus, mas também para a sociedade, contribuindo para a convivência social. “É necessário aprender a reconhecer os bens que a família gera em beneficio de toda a sociedade”, diz o bispo. “Na família forma-se a confiança, tão decisiva para as relações interpessoais. A família habitua os seus membros à cooperação, aos relacionamentos gratuitos. Ela estimula a fraternidade, a generosidade, o justo cálculo dos recursos disponíveis. Nas famílias florescem práticas de cooperação e de serviço recíproco, convergência de aptidões para construir o bem comum, de atenção dada aos mais frágeis e vulneráveis (crianças, idosos, portadores de deficiências, doentes). Essas práticas familiares são fundamentais para a convivência social desenrolar-se na paz.” Só essa constatação bastaria para que o Estado, mesmo sendo laico, fosse um aliado da Família e não aprovasse leis que a desfiguram. Se entendessem isso, os Meios de Comunicação teriam gosto de defender a Família, em vez de ridicularizá-la. Os cidadãos, mesmo que não tivessem motivos de fé, seriam defensores da Família. Em vez disso, estamos convivendo, há décadas, com uma degradação sistemática da estrutura familiar, sem encontrar remédio. Os pais andam assombrados com os ambientes que os filhos freqüentam, com os conteúdos que circulam livres na internet, e idéias que observam nos seus filhos. A juventude não é culpada, mas é vítima, de uma desorientação completa no sentido da ética sexual, são filhos de uma sociedade permissiva, de uma escola tantas vezes omissa, ou submissa a um Governo que prefere distribuir camisinhas em vez de ensinar a responsabilidade sexual. Nosso Boletim Diocesano tem tratado a Família com especial atenção, dedicando a ela muitas páginas, e até uma longa série de artigos, selecionados por Dom Walter, de grande valia para a reflexão nas famílias. E a Pastoral Familiar diocesana tem crescido em consciência e atuação. Mas é preciso fazer mais.
A preparação para o casamento
O casamento civil e o religioso tem se tornado cada vez mais raro, e muitos casais tem optado, mesmo nas nossas famílias católicas, pela união informal, vivendo sem o sacramento do matrimônio. Dizer que isso é uma tendência no mundo inteiro não consola a nossa consciência nem nos coloca em grau mais avançado de sadia modernidade. Percebemos que quando os noivos procuram as nossas igrejas para o casamento religioso, trazem consigo esse mundo de fatores que desgastaram o sentido do Sacramento: muitos já não vivem no ambiente de fé de seus pais, mas querem a cerimônia por tradição. Há quem se empolgue por investir num grande e dispendioso aparato festivo, mas com pouco sentido religioso. Há quem já viva a vida conjugal e queira só a formalidade da cerimônia. Há quem escolha a igreja por ser bonita e não por ser a sua comunidade de fé. Há quem peça o sacramento sem querer o compromisso civil. Há casamentos de mista religião e disparidade de culto que exigem especial atenção pastoral. Há casamentos motivados por uma imprevista gravidez ou com tal imaturidade que dificilmente se pode dizer que tenha condições se concretizar “até que a morte separe”. Essas e outras situações, tão freqüentes, exigem um cuidado pastoral especial.
O Encontro de Noivos
No último Estrela, o nosso enfoque foi direcionado à preparação para o Batismo, um dos pontos relevantes apontados pela última Assembléia Diocesana. Pela mesma razão olhamos hoje para a preparação dos noivos, pois ambos os Sacramentos, Batismo e Matrimônio podem ser uma ocasião pastoral para trazer ao convívio da comunidade cristã aqueles que vivem distanciados do compromisso dominical, ou nunca mais aparecerão se não se sentirem acolhidos e convidados a viver mais profundamente a sua fé. Como no caso do Batismo, algumas paróquias têm boas equipes de preparação para o matrimônio, outras se contentam com um assim chamado “cursinho” que não tem outro atrativo senão o “comprovante” obrigatório para a realização do matrimônio. Será que nossa consciência pode ficar tranqüila oferecendo tão poucas opções de preparação para a vida familiar que consideramos tão importante? Sabendo que os casamentos duram hoje cada vez menos com tantas e trágicas conseqüências pra a vida da Igreja e da sociedade, como não olhar para aqueles que se preparam, com um cuidado todo especial?
A Pastoral Familiar e a Ação Evangelizadora
É urgente que as nossas paróquias sejam, e se tornem ainda mais, centros de formação para a vida familiar. Razões temos de sobra: a Família continua sendo uma prioridade definida pela Diocese; a Conferência de Aparecida e as Diretrizes da Igreja definem a Família como “valor transversal”, eixo que perpassa toda a ação evangelizadora; a Assembléia Diocesana incluiu a preparação para o Matrimônio como local privilegiado para a iniciação cristã de adultos. Em vista de tudo isso, minha contribuição à reflexão e ação dos CPAEs seria expressa em alguns pontos, como estes:
- Preparação dos noivos para o Matrimônio – A Paróquia tem uma equipe para acolher adequadamente os noivos à procura do sacramento? Essa preparação é suficiente ou poderia ser melhor? Seus conteúdos estão atualizados? Os agentes da pastoral dos noivos poderiam se encontrar em grupos de paróquias ou setor, para aprimorar os encontros de noivos? Há experiências de preparação personalizada dos noivos em suas casas?
- Preparação remota para o Matrimônio – A importância da vida familiar, e a situação da juventude, exigem que o matrimônio seja preparado desde muito mais cedo. Como a paróquia apresenta as questões familiares na Catequese, com as crianças e com os pais? Há um trabalho sistemático de formação para a família nos grupos de jovens? Seria oportuna uma pastoral direcionada aos namorados, com retiros, palestras, e encontros? Há meios de reunir professores, envolver alunos, ajudar a Escola a trabalhar os assuntos referentes à Vida e a Família?
- A defesa da Vida – Há na cultura atual um forte cheiro de morte. Respiramos, junto com o ar poluído, as mensagens de que o aborto é uma questão de saúde pública, usuário de droga não pode ser criminalizado, leis que desfiguram a família são um avanço que nos equiparam ao primeiro mundo, a eutanásia é uma forma de compaixão para com o doente terminal, pesquisas que matam embriões humanos são necessárias ao avanço da ciência, transgênicos e poluentes são um mal necessário ao progresso, e assim por diante. O que fazemos para deter a cultura da morte e defender a vida? Há quem se interesse em estudar esses assuntos e difundir nos grupos paroquiais uma visão cristã do progresso, da ciência e da sacralidade da vida?
- Pastoral pós-Matrimonial – A paróquia, como escola de vida familiar, conta com ações permanentes de apoio às famílias já constituídas? É oportuno promover Retiros para casais? Há iniciativas para implantar na Paróquia os Movimentos Familiares, como ECC, Cursilhos, Experiência de Oração para Casais, Movimento de Irmãos, e outros? Haveria sentido em criar um plantão de aconselhamento, ou grupo de visitas para casais em dificuldade que peçam ajuda?
- Casais em segunda união – Hoje são cada vez mais numerosos, querem participar da igreja e muitas vezes se sentem rejeitados e magoados com a Igreja. A Igreja os acolhe, e lhes pede que sigam as normas próprias para o seu estado de vida. A Paróquia conta com uma equipe esclarecida para acolher, orientar, integrar, e oferecer a esses irmãos alternativas para viver a sua vida cristã unidos à Igreja?
Os temas referentes à vida familiar vão muito mais longe do que o espaço disponível nesta página. Dizem respeito ao nosso dia-a-dia pastoral e não raro escondem cruzes e aflições insuportáveis. Creio que, mais do que atender a um desejo expresso pela Assembléia Diocesana de 2010, a consideração pastoral destes temas nos devia mover decididamente a uma Pastoral Familiar mais efetiva nas Paróquias. Se cada Paroquia tiver uma Comissão de Vida e Família, em estreita ligação com a Pastoral Familiar Diocesana e com o Conselho Paroquial, terá trabalho exaustivo, porém com muitos frutos para a Igreja e para a sociedade.
Dom
João
Bosco Barbosa de Souza, ofm
Bispo Diocesano de União da Vitória
dombosco@dioceseunivitoria.org.br
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