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25.05.2010 - O dom de pertencer à Igreja

A alegria de uma família cristã em receber um novo membro, em geral é acompanhada pelo cuidado de trazer o recém-nascido para receber o Sacramento do Batismo. A maior parte das famílias prefere não esperar muito tempo: em geral, já no tempo da gravidez são escolhidos os padrinhos, ou até mesmo antes, se a escolha foi firmada em promessas e complicadas negociações familiares. Se a família tem uma vivência quotidiana da fé cristã e participação na vida eclesial, o fato se reveste de grande significado. Abre-se ao novo cristão as portas de todos os dons sacramentais, assim, incorporado a Cristo pelo Batismo. Toda a família participa desse momento como uma afirmação da fé pascal, uma renovação da graça de pertencer à Igreja, todos associados à sua missão. 

Porém, não é assim que acontece em muitas famílias que procuram o batismo. Nossa experiência pastoral nos mostra que é cada vez mais freqüente a procura pelo batismo sem uma consciência tão clara do seu significado sacramental mais profundo. O motivo de se pedir o batismo está, nesses casos,  mais ligado à tradição, muito arraigada, embora pouco evangelizada, ou mesmo a motivações frágeis de uma suposta proteção de Deus, ou alguma devoção aos santos, o medo da condenação eterna, ou ainda algum improvável benefício à saúde.

Uma nova realidade pastoral

Mesmo no ambiente majoritariamente religioso e católico de nossa diocese, é crescente o número de famílias que se afastaram da Igreja, ou que passaram por experiências em outras igrejas, que pedem o batismo para seus filhos. Há também aqueles que são inscritos para a catequese de primeira eucaristia sem terem recebido o batismo, e também adultos que pedem o batismo, sobretudo na ocasião em que se preparam para a vida matrimonial. Agora, com o trabalho missionário realizado nas comunidades, é possível não apenas esperar que se apresentem os candidatos ao batismo, mas podemos ir ao encontro daqueles que estão mais afastados para lhes oferecer a graça de pertencer à Igreja pelo Batismo.  E foi esse novo ambiente pastoral que motivou a nossa Assembléia Diocesana, de fevereiro último, a incluir entre as ações prioritárias da nossa ação evangelizadora o propósito de “renovar os encontros de preparação para o Batismo e Matrimônio” no contexto da iniciação à vida cristã dos adultos. Gostaria de convidar a todos para tomarmos em consideração neste mês, especialmente a preparação do Batismo.

Ainda exigimos “cursinhos”?

Numa conversa com casais de diversas paróquias, surgiu o assunto da preparação para o Batismo, por causa da indignação de alguém: três filhos e dois afilhados. O casal foi obrigado a fazer quatro vezes um “cursinho”, num espaço de quase dez anos. Na quinta vez, recusou-se. Era a mesma pessoa palestrando sozinha, o mesmo assunto, os mesmos gracejos, a mesma monotonia. Mas precisava do “certificado”, senão, não haveria batismo. Os outros casais da roda concordaram, e contaram outras histórias: tiveram que “freqüentar um grupo de reflexão” para ganhar o “comprovante”. Outro teve que acertar o dízimo de três anos, para poder batizar. Um dos presentes me questionou se era válido exigir o casamento religioso dos pais como condição para fazer o batismo. Um tal casamento não seria nulo, inválido, porque “forçado” pela circunstância? Fui anotando todas essas observações para depois responder. De fato, a nossa prática pastoral, mesmo levando em conta a imensa boa vontade de muitos esforçados e até heróicos irmãos, precisa ser repensada e alinhada a novos conceitos, mais apropriados para os tempos de hoje. Os “cursinhos” começaram a ser exigidos após o Concilio Vaticano II (há mais de quarenta anos). E não basta trocar o nome para “Encontro de Pais e Padrinhos”. Mais do que mudar o nome, é preciso rever nossa pastoral do Batismo à luz da inspiração catecumenal, acolhendo bem àqueles que pedem o batismo, seja qual for a sua condição de vida cristã, e oferecendo a possibilidade de conhecer melhor Jesus Cristo e sua comunidade e fazer parte dela. É claro que não é tão simples assim, nem existe receita pronta. Existem boas experiências que estão sendo realizadas por algumas comunidades.  

Refletir e renovar

Está sendo elaborado um novo Diretório Diocesano, que deverá conter as normas para a realização de cada sacramento. As questões aqui propostas, quanto à Pastoral do Batismo,  poderão abrir perspectivas para a redação desse texto. Essa é mais uma razão para que as comunidades busquem refletir e responder a questões como estas:

  1. Como são acolhidos os adultos que se apresentam para o batismo na sua comunidade? E para as famílias que pedem o batismo das crianças, como é feita a preparação? Eles sentem que há uma comunidade que os acolhe? A preparação é só “palestra” ou há também orações, cantos, chá ou cafezinho? O tempo empregado na preparação é suficiente? As famílias se sentem motivadas a permanecer e participar da comunidade? A Pastoral Familiar paroquial participa da preparação?

  2. Os participantes da Assembléia Diocesana de 2010 pediram que fossem renovados os Encontros de Preparação. Quais os aspectos que mais carecem de renovação? Os assuntos tratados? A equipe é suficiente? O ambiente é adequado? Há recursos audiovisuais disponíveis? Há participação numa Liturgia acolhedora e compreensível aos recém-chegados? Há vantagem em centralizar a preparação apenas na matriz? Ou por setores, nas capelas? Ou fazer a preparação personalizada, na própria família?

  3. Há situações especiais que precisam ser encaminhadas com cuidado pastoral, dentro das normas da Igreja, com atenção às condições dos pais e padrinhos. Por exemplo, quando os pais não receberam o sacramento do matrimônio; quando os padrinhos escolhidos não receberam os sacramentos da iniciação, ou estão canonicamente impedidos; quando um dos padrinhos não é católico, ou ambos; quando os padrinhos não têm idade suficiente, quando há uma situação de emergência hospitalar; quando a criança é adotada, sem registro definitivo; quando há problemas no relacionamento inter-ritual; quando a criança já tem idade de iniciar a catequese,  e outras situações desse tipo, quem os orienta? A Secretaria paroquial? O pároco? Os responsáveis pela preparação? Quem deveria fazê-lo?

  4. O Batismo deve ser realizado, em princípio, na comunidade paroquial onde residem ou participam os pais do batizando. Haveria casos de procura desta ou daquela outra paróquia em razão de menos exigências, ou descaso com as normas e costumes da diocese?

  5. A celebração do Batismo é comunitária? Há uma equipe especial de celebração para o Batismo? Conta com a participação dos catequistas que conduziram a preparação? A família participa da missa dominical quando o batizado é feito fora da missa?

  6. Os registros são feitos corretamente nos livros paroquiais, de modo a não sobrarem lacunas dificilmente preenchidas posteriormente?

  7. A primeira tarefa é, então, trocar idéias, conhecer o que se realiza nas paróquias, e a partir daí, avançar. Seria ideal um encontro dos responsáveis pela preparação do Batismo, juntamente com os párocos, em cada setor pastoral.

  8. Posteriormente, os representantes de cada setor poderiam constituir uma Equipe Diocesana da Pastoral do Batismo, com a finalidade de acompanhar a caminhada das paróquias; estabelecer os marcos fundamentais para a caminhada comum; elaborar subsídios para uso na preparação e celebração dos batizados; promover a formação de novos agentes, entre outras tarefas.

  9. Como poderemos introduzir Ritual para a Iniciação Cristã dos Adultos na nossa realidade diocesana? Uma Equipe Diocesana da Pastoral do Batismo poderá  dialogar com a Catequese, com a Pastoral Familiar, com os movimentos familiares, com as frentes missionárias, com os Conselhos Paroquiais da Ação Evangelizadora, e assim dar andamento constante à Pastoral do Batismo?

  10. O resultado desse trabalho, quando suficientemente amadurecido, deverá ser acompanhado pela equipe que elabora o Diretório Diocesano dos Sacramentos, para que fique consignado com clareza nesse texto aquilo que deverá ser seguido por todas as paróquias.

Como sempre, esses pontos não pretendem esgotar o assunto. São apenas pistas. O intuito da Assembléia Diocesana foi fazer um convite à renovação e ao crescimento na vida comunitária e eclesial, e corresponder melhor ao dom precioso que é pertencer à Igreja, nossa mãe, e nosso caminho de salvação.

Dom João Bosco Barbosa de Souza, ofm
Bispo Diocesano de União da Vitória
dombosco@dioceseunivitoria.org.br

 
 
 

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